Naquele momento, o nome tinha peso pessoal. Em 1991, fazia apenas dois anos que eu havia assistido a um Globo Repórter exibido por ocasião do centenário dos crimes do assassino londrino, lá no distante 1889 — um programa que, lembro bem, me impressionou mais do que deveria para alguém daquela idade.
Eu cultivava um fascínio razoavelmente saudável — ou não — por histórias de terror, como qualquer adolescente comum daquela época em que o gênero vivia seu auge. O VHS havia tomado as casas, as locadoras se multiplicavam pelos bairros e bastava uma capa chamativa para prometer noites mal dormidas. Terror era barato, acessível e onipresente, e eu estava completamente dentro disso.
Comprei a revista. Chamava-se Dylan Dog. Era em preto e branco, o que, à primeira vista, não me animou muito — aquilo parecia antigo demais para alguém acostumado às cores berrantes das capas de vídeo e dos gibis americanos. Fui atraído muito mais pelo tema do que pelo personagem em si, sobre o qual eu não fazia a menor ideia do que se tratava. Não sabia quem era Dylan Dog, de onde vinha, nem por que estava se metendo com Jack, o Estripador. Mas alguma coisa ali prometia um tipo diferente de horror — e isso, aos 16 anos, já era mais do que suficiente.
Foi amor à primeira vista. Ou à primeira leitura — que assim seja. Eu imaginava estar comprando uma história ambientada na Londres de Jack, o Estripador, e acabei descobrindo o Detetive dos Pesadelos, naquela que era apenas a segunda edição do personagem publicada no Brasil. A primeira, de agosto, já não estava mais disponível. Naquela época, quando chegava uma edição nova, as anteriores simplesmente desapareciam da banca, como se nunca tivessem existido.
Algumas semanas depois, surgiu a terceira edição — desta vez com um lobisomem estampado na capa, deixando claro que aquilo não tinha sido um acaso isolado. Dylan Dog não estava apenas de passagem; tinha vindo para ficar na minha vida (ao contrario das bancas à epoca)
Como já disse — e provavelmente ainda direi outras vezes —, filmes de terror eram a grande paixão da minha adolescência. Uma paixão que vinha sendo gestada desde o final da infância, mas que, naquele início dos anos 1990, já estava em plena ebulição. Era o momento em que tudo conspirava a favor: VHS, locadoras de bairro, capas apelativas, sessões proibidas para menores e uma sensação permanente de que o horror era um território a ser explorado.
Nesse cenário, Dylan Dog surgia como o chamariz perfeito para os quadrinhos da Bonelli. . Mistério, horror, assassinos históricos, monstros clássicos — tudo embalado num formato que parecia feito sob medida para alguém como eu. Não era apenas mais um gibi de terror; era uma espécie de síntese daquele fascínio adolescente, agora traduzido em páginas em preto e branco que, curiosamente, passaram a fazer todo o sentido. Ja falei anteriormente da minha historia com a Bonelli aqui nesse link.
Mas, ao mesmo tempo em que o terror me interessava, o texto de Tiziano Sclavi soava diferente de tudo o que eu já conhecia. Não lembrava exatamente os filmes que eu via nas locadoras, nem as publicações clássicas de horror que circulavam por aqui, como os contos da Cripta. Havia algo ali que escapava do susto fácil, da estrutura previsível, do prazer imediato do medo. Hoje, com um pouco mais de repertório e conhecendo melhor o horror italiano, consigo identificar influências, ecos, referências. Na época, porém, aquilo me parecia simplesmente novo — e, para mim, completamente inédito.
Sclavi é genial não por ter inventado a roda, mas por saber exatamente como reuni-la com tantas outras. Ele condensa influências literárias, cinematográficas e culturais muito diversas e transforma tudo em algo profundamente autoral. E como bom italiano os Gialli são a referência máxima. Dylan Dog não soava como cópia de nada específico; parecia um território próprio, estranho, às vezes melancólico, às vezes irônico, frequentemente mais interessado em provocar incômodo do que medo.
Segui comprando as edições mensalmente até que, em algum momento, vivi uma dessas pequenas vitórias pessoais que só fazem sentido para quem cresceu frequentando bancas e sebos: encontrei, finalmente, a tão desejada edição número 1. Foi em um sebo de Bauru. Ah, os sebos daquela época — quando o preço de uma revista nova na banca rendia facilmente três ou quatro usadas, e a caça fazia parte da experiência. Não era apenas comprar; era garimpar, folhear, negociar, sair com a sensação de ter conquistado algo.
É a partir dessa trajetória pessoal que esta matéria se organiza. Aqui, a ideia é percorrer as edições de Dylan Dog publicadas no Brasil até hoje, um caminho marcado por diversas editoras, interrupções e retornos nem sempre muito alardeados. A publicação do personagem por aqui sempre foi errática, embora isso não seja exatamente um problema narrativo: para a Bonelli, a ordem cronológica nunca foi uma obsessão, e isso raramente compromete a leitura. Por outro lado, dificulta a vida de quem gosta de acompanhar fases, evoluções e mudanças de tom — que existem, sim, e são parte fundamental da riqueza do personagem.
QUEM AFINAL É DYLAN DOG ?
Dylan Dog, como já foi dito, é o Detetive do Pesadelo. Suas histórias começam em 1986, quando o personagem é criado por Tiziano Sclavi para a Bonelli, em uma Londres que talvez nunca tenha existido de fato, mas que funciona perfeitamente como cenário para fantasmas, neuroses e chá frio.Ex-policial e alcoólatra em recuperação — ou, ao menos, em permanente tentativa — Dylan deixa a corporação sobretudo por causa da bebida e passa a ganhar a vida investigando fenômenos paranormais. Mora em Londres, no número 7 da Craven Road, endereço que parece existir apenas para reforçar a ideia de que nada ali é exatamente normal. Seu carro é um simpático fusca com a sugestiva placa DY666. Por fim, Divide o espaço com Groucho, seu assistente de humor incessante e aparência inspirada no comediante Groucho Marx, responsável por comentar o horror alheio com piadas de gosto duvidoso e timing impecável.
Uma das piadas recorrentes da historia é de que Grouxo sempre aparece e joga para Dylan uma arma nos momentos em que ele mais precisa.
Mantém também uma relação francamente hostil com a tecnologia moderna, preferindo métodos antiquados, discos de vinil, máquinas de escrever e qualquer coisa que exija mais esforço do que eficiência. Mesmo quando fases mais recentes da série introduzem recursos tecnológicos, eles surgem como concessões relutantes, aceitas mais por cansaço do que por convicção — um traço de personalidade que ajuda a explicar por que Dylan parece sempre emocionalmente disponível, ainda que pouco disposto a aprender com a experiência.
Em praticamente todas as histórias, Dylan acaba envolvido romanticamente com alguma cliente — o que leva à conclusão inevitável de que a Londres da série é habitada por mulheres extraordinariamente apaixonantes. Convém esclarecer que isso não faz dele um canalha machista: Dylan não conquista, ele sucumbe. Apaixona-se com a mesma facilidade com que aceita um novo caso, e sempre de forma sincera. Seu único azar é de ordem narrativa: essas mulheres raramente permanecem na edição seguinte, deixando-o livre para se apaixonar outra vez, como se o problema nunca tivesse sido dele. O resultado é uma sucessão quase estatística de envolvimentos amorosos. Considerando que a série já ultrapassou a marca de 300 edições na Itália, não é exagero afirmar que Dylan Dog talvez seja um dos maiores — senão o maior — “pegador” da história dos quadrinhos, ainda que raramente saia ileso, emocionalmente ou de outra forma, dessas relações.
Completa o time o inspetor Bloch, ex-superior de Dylan na Scotland Yard e figura paterna por força das circunstâncias. Embora não leve muito a sério o trabalho do antigo pupilo, Bloch acaba cedendo sempre que se depara com casos que simplesmente se recusam a caber nos relatórios oficiais — uma situação que, invariavelmente, termina com Dylan sendo chamado para resolver o inexplicável e, de quebra, escapar de mais um aperto burocrático.
A primeira história já apresenta Dylan em ação como detetive do pesadelo, plenamente funcional em meio ao caos. Seu passado como policial e os problemas com a bebida, no entanto, são revelados aos poucos, quase com pudor, ao longo das edições seguintes, assim como outros fragmentos de sua história pessoal — sua mãe, por exemplo — que surgem conforme o tema da vez permite ou exige. Não há uma edição de origem que organize tudo em ordem cronológica: o passado de Dylan aparece de forma esparsa, às vezes contraditória, como se até ele próprio preferisse não ter todas as informações reunidas no mesmo lugar.
Alguns personagens surgem, desaparecem e eventualmente retornam em determinadas histórias, mas o núcleo da série permanece essencialmente o mesmo — o que nos leva diretamente ao estilo das narrativas. A estrutura não cronológica do personagem oferece liberdade total aos autores: Dylan Dog pode morrer, enlouquecer ou chegar a um fim definitivo em uma história e, ainda assim, na edição seguinte, lá está ele novamente em seu estúdio, empenhado em montar um navio dentro de uma garrafa.
É um projeto, aliás, condenado ao fracasso. Dylan nunca o conclui, pois invariavelmente é interrompido por Groucho, anunciando que há um cliente à sua espera. O ciclo se repete com a tranquilidade de quem aceita o absurdo como parte da rotina — um pequeno gesto cotidiano que resume bem a lógica interna da série: o horror pode ser definitivo, mas o expediente recomeça na edição seguinte.
Dylan Dog foi um sucesso editorial imediato. Já em 1987, foi criado na Itália um festival de terror que levava seu nome, o Dylan Dog Horror Fest, que teve quatro edições e trouxe ao país nomes centrais do cinema de horror, como Bruce Campbell e Robert Englund. No auge de sua popularidade, Dylan Dog chegou a vender mais do que Tex e Tutto Tex juntos — e isso não é força de expressão nem entusiasmo de fã: é o próprio Tiziano Sclavi quem afirma em Almanacco del Terrore, um dos muitos especiais publicados ao longo da história da série.Além da edição regular, Dylan Dog passou a contar com diversas publicações paralelas. Entre elas, o Speciale, anual que segue em publicação na Itália e que já soma 38 edições — sendo Il pianeta dei morti, que será abordado mais adiante, parte dessa série. Houve também o Almanacco della Paura, com 24 edições italianas, e o Dylan Dog Gigante, que teve 22 edições publicadas na Itália e deixou de circular em 2013.
Esses títulos, suas particularidades editoriais e a forma como foram publicados no Brasil — com diferenças de numeração, periodicidade e critérios de seleção — serão tratados mais adiante, quando entrarmos especificamente nos lançamentos brasileiros e na correspondência com as edições originais italianas.
EIS O BRASIL
Dylan Dog foi apresentado ao leitor brasileiro em 1991, cinco anos após sua criação, pela Editora Record, em uma série que durou menos de um ano. Foram 11 edições, correspondentes às primeiras 11 do original italiano. A curta duração, contudo, não deve ser lida como fracasso editorial do personagem.
1991 foi um ano particularmente ruim para o mercado editorial brasileiro, em pleno auge da crise econômica provocada pelo Plano Collor, quando as revistas chegavam às bancas com o preço já defasado pela inflação, como se tivessem passado por um pequeno atraso administrativo antes mesmo de serem lidas. Todas as séries publicadas pela Record na época acabaram canceladas — algumas antes, outras depois — num movimento de retração generalizada do setor, mais próximo de uma evacuação ordenada do que de uma reação direta do público.
Não há dados precisos de vendagem disponíveis, mas vale lembrar que se tratava de um período em que 30 mil exemplares vendidos já podiam ser considerados um fracasso editorial. Hoje, esse mesmo número seria celebrado como um sucesso retumbante, digno de discursos e tapinhas nas costas, sobretudo em um mercado onde muitas editoras trabalham com tiragens inferiores a 3 mil exemplares — um luxo quase obsceno para os padrões atuais, tratado com a reverência que outrora se reservava apenas aos grandes best-sellers.Ainda durante a publicação da série regular, em janeiro de 1992, a Record colocou nas bancas o especial Dylan Dog e Martin Mystère, trazendo o primeiro crossover entre os dois personagens da Bonelli. A história “Ultima fermata: l’incubo” (Última Parada: Pesadelo) é leitura obrigatória e causa certa estranheza que ainda não tenha sido republicada por alguma editora — um mistério menor, talvez, mas plenamente compatível com o universo do personagem.
Após o fim da série, sem qualquer alarde, a Record lançou em 1993, já em formato magazine, a edição especial Incubus, que apesar da aparência de spin-off faz parte da série regular italiana. Trata-se de uma edição rara, aparentemente de tiragem modesta, com pouca repercussão e distribuição igualmente discreta à época. Anos depois, a Mythos a republicou — novamente sem grande anúncio — no número 35 da série regular que ainda mantém em catálogo. O título da história não aparece na capa, já que se trata de um relato curto, dividido com “O ultimo uomo della Terra” (O Último Homem da Terra), como se Incubus estivesse condenado a existir sempre em tom baixo, quase pedindo desculpas por estar ali.Incubus ainda ganhou uma edição pirata em 2016, publicada pelo fanzine Replicoide, dedicado a “replicar” edições mais cults e de difícil acesso — um gesto editorial tão ilegal quanto compreensível, executado com a seriedade quase institucional de quem acredita estar prestando um serviço público.
No mesmo ano de 1993, a Editora Globo — então em fase de experimentação e tentativa de diversificação de seus títulos de quadrinhos — lançou o especial Fumetti, outra edição rara em formato magazine. A publicação reunia histórias curtas coloridas de Tex, Martin Mystère, Mister No, Nathan Never, Nick Raider e, naturalmente, Dylan Dog.No caso do Detetive do Pesadelo, foi publicada “O inquilino do terceiro andar”, história que saiu originalmente na Itália na revista Comic Art e que dialoga diretamente com O Inquilino, filme de Roman Polanski — um clássico do cinema que, como a própria história em quadrinhos, trata a paranoia como algo perfeitamente funcional.
Esse especial Fumetti acabou encerrando a presença de Dylan Dog no mercado brasileiro ao longo da década de 1990, mesmo com sete anos ainda pela frente até o fim do século XX — período em que o personagem permaneceu ausente, como se ninguém tivesse notado que ele já existia.
Saltamos agora para outubro de 2001, quando a Editora Conrad trouxe novamente Dylan Dog ao Brasil. Foi uma série curta, mas significativa, composta por seis grandes histórias, desta vez sem qualquer compromisso com a ordem cronológica. Tratava-se de uma seleção cuidadosamente curada de momentos centrais do personagem: “Johnny Freak”, “Morgana”, “Memórias do Invisível”, “Depois da Meia-Noite”, “O Retorno do Monstro” e “Os Mortos-Vivos”, sendo estas duas últimas já publicadas anteriormente pela Record. Posteriormente a editora juntou os encalhes num box com as seis edições.
O grande destaque dessa coleção foram as capas criadas por Mike Mignola, originalmente produzidas para a publicação das histórias nos Estados Unidos como porta de entrada da série naquele mercado. Considerando o histórico de Hellboycom crossovers — alguns mais inspirados do que outros — e levando em conta que a própria Bonelli já se aventurou recentemente em encontros editoriais com a DC Comics, um eventual cruzamento entre os universos de Hellboy e Dylan Dog não apenas seria plausível, como talvez se beneficiasse de manter uma distância segura do modelo tradicional de super-heróis, apostando mais na estranheza europeia do que no entusiasmo típico de convenções americanas.
Aqui, ao menos, seria um encontro que não faria feio — e que, com alguma sorte, dispensaria capas reluzentes e discursos heroicos excessivamente confiantes.
Mas apenas quatro meses depois de a Conrad encerrar a série, a Mythos iniciou a publicação do personagem. Na primeira edição, lançada em agosto de 2022, optou pelo número 100 da série italiana, “A História de Dylan Dog” — uma escolha respeitável, embora o título sugira algo mais introdutório do que a história efetivamente entrega, funcionando melhor para leitores já familiarizados com o personagem do que para iniciantes. A série da Mythos não seguiu uma ordem cronológica e se estendeu por 40 edições, encerrando-se em fevereiro de 2016.
Durante esse período, Dylan também apareceu na série Tex e os Aventureiros, que, à semelhança do especial Fumetti da Editora Globo, reunia histórias curtas com personagens da Bonelli — desta vez com Zagor ocupando o espaço antes reservado a Nathan Never. Foram publicadas cinco edições regulares e mais um especial, que trouxe o segundo encontro com Martin Mystère, “O Fim do Mundo”, história originalmente lançada em 1992, provando que, no universo Bonelli, o apocalipse costuma ser recorrente e raramente definitivo.
OUTRA PAUSA, COMO DE COSTUME
A partir daí, Dylan Dog permaneceria por mais 11 anos esquecido no Brasil, até que a Editora Lorentz resolvesse trazê-lo de volta em três edições. A primeira delas apresentou “Retorno ao Crepúsculo”, continuação direta de “A Zona do Crepúsculo”, história publicada originalmente pela Record. Ambas saíram recentemente reunidas em um encadernado de capa dura e colorizado pela Panini, em um desses raros momentos em que o passado é reorganizado com eficiência.
“Mater Morbi”, última edição publicada pela Lorentz, foi premiada no The Ghastly Awards de 2016 e considerada a melhor história de Dylan Dog dos últimos 20 anos. Curiosamente — ou talvez coerentemente com a lógica errática do mercado — também ganhou uma edição de luxo, desta vez pela Mythos.
Quando tudo indicava que a Lorentz seguiria adiante com a série, eis que, de forma bastante repentina, a Mythos — que por longos anos demonstrou um desinteresse quase metódico pelo personagem — resolveu licenciar novamente Dylan Dog, justamente após o sucesso dessa breve retomada. O movimento causou um discreto, embora palpável, mal-estar editorial.
Curiosamente, não era a primeira vez que isso acontecia: a mesma Mythos já havia iniciado a publicação do personagem em 2002, logo após o encerramento da curta passagem pela Conrad. A recorrência do gesto sugere menos coincidência e mais um saudável senso de oportunidade. De todo modo, para o leitor brasileiro, o resultado final foi positivo — Dylan Dog estava, mais uma vez, disponível, ainda que sempre no momento imediatamente posterior ao esforço alheio.
A primeira edição, lançada em março de 2018, trouxe a excelente “Horror Paradise”. Mais uma vez publicada fora de ordem, a série passou, a partir de determinado ponto, a priorizar histórias da chamada fase de ouro do personagem — aproximadamente as cem primeiras edições italianas — recuperando episódios inéditos desse período que não haviam sido publicados nem pela Record nem pela própria Mythos em sua primeira série.
Essa nova fase não segue periodicidade mensal e permanece em publicação até hoje, já tendo ultrapassado a edição 40. Trata-se, até o momento, da mais longa sequência de publicações ininterruptas de Dylan Dog no Brasil — um feito relevante para um personagem que, historicamente, nunca teve grande vocação para a regularidade editorial.
A NOVA SÉRIE, VERSÃO DEFINITIVA PROVISÓRIA
Em paralelo a essa série, ainda em 2018, a Mythos lançou uma publicação complementar intitulada Dylan Dog – Nova Série. Apesar do nome, não se trata de um título italiano inédito, mas de histórias publicadas originalmente na Itália a partir do número 338, lançado em 2014, desta vez organizadas em ordem cronológica a partir desse ponto. A capa presta homenagem direta à icônica “Homem-Aranha Nunca Mais”, da Marvel — uma referência curiosa e assumidamente explícita.
A escolha do título se explica por um motivo prático. Em 2014, Dylan Dog passou por uma reformulação na Itália, com suas histórias incorporando elementos mais contemporâneos, como o uso de celulares, redes sociais e outras marcas da vida moderna. A partir daí, as histórias passaram a sugerir uma continuidade mais clara entre si, ainda que de maneira discreta e nada invasiva. No essencial, tudo permanece fiel ao padrão clássico da Bonelli: cada episódio continua funcionando de forma autônoma, com a cronologia operando mais como orientação do que como obrigação — uma atualização cuidadosa, feita sem pressa e sem a menor intenção de mudar demais o que sempre funcionou.
A literatura popular costuma refletir a realidade de uma época e de sua sociedade, funcionando como uma espécie de espelho no qual se depositam medos, angústias e obsessões coletivas — muitos deles herdados, outros cuidadosamente atualizados. O avanço da civilização não eliminou esses temores ancestrais; ao contrário, criou novas condições para que se desenvolvessem com mais conforto. O progresso trouxe técnicas de impressão mais velozes, redes de distribuição mais eficientes e uma circulação de informação cada vez maior. Dylan Dog, naturalmente, acompanhou esse movimento, ainda que nem sempre com entusiasmo.
O terror presente na série reflete de maneira bastante clara o espírito de seu tempo. A política, como de costume, infiltra-se em todos os gêneros narrativos — do drama à comédia, e com especial desenvoltura no horror. Quando alguém reclama da presença de política nos quadrinhos, via de regra não está apontando um problema estético, mas apenas constatando que a história em questão não confirma suas próprias convicções. Em muitos casos, trata-se menos de uma leitura crítica e mais de um hábito repetido com convicção automática.
A palavra escrita sempre teve força, mas com a proliferação das redes sociais esse poder ganhou escala industrial. Pequenos textos passaram a ser suficientes para que leitores pouco afeitos à leitura se sintam plenamente informados, seguros de suas opiniões e, sobretudo, muito dispostos a compartilhá-las. É um fenômeno curioso — e perfeitamente compatível com o universo de Dylan Dog — em que a ilusão de clareza se espalha com mais rapidez do que qualquer pesadelo clássico.
John Ghost surge como a principal figura antagonista associada à Nova Série. Sua primeira aparição ocorre no especial John Ghost, lançado no Lucca Comics & Games 2014, sendo integrado à continuidade da série regular a partir do número 341. Empresário de tecnologia sem escrúpulos, Ghost funciona como uma metáfora bastante direta — e nada gentil — do mal contemporâneo vinculado à tecnologia, ao consumo e à promessa constante de eficiência.
Proprietário da Ghost Enterprises, ele é o criador do Ghost 9000, um smartphone que parodia de forma pouco disfarçada as grandes plataformas dominantes do mercado. A sátira é clara: trata-se menos de um aparelho e mais de um símbolo da dependência digital, da vigilância disfarçada de conveniência e da transformação do cotidiano em produto — tudo apresentado com a polidez corporativa habitual.
Apesar da introdução desse novo eixo antagonista, o padrão narrativo segue essencialmente o modelo clássico da Bonelli. As histórias continuam podendo ser lidas de forma independente, sem a exigência de uma cronologia rígida. O que se estabelece é apenas uma continuidade leve, suficiente para amarrar alguns arcos e recorrências — algo próximo ao funcionamento de séries como CSI ou Arquivo X: episódios autônomos, mas com uma linha de fundo que recompensa o leitor mais atento, sem punir quem chega atrasado.
A Nova Série teve uma duração considerável quando comparada ao histórico errático do personagem no Brasil, alcançando 32 edições antes de ser descontinuada pela Mythos na edição 372 do original italiano, história de 2017, publicada por aqui em novembro de 2023.Pouco mais de dois anos depois, em janeiro de 2026, a Editora Lorentz resolveu — para surpresa moderada de todos — retomar a publicação exatamente do ponto em que a Mythos havia parado. O primeiro volume trouxe duas histórias, correspondentes às edições italianas 373 e 374. A escolha foi particularmente feliz: tratam-se de histórias muito fortes para reapresentar o personagem, escritas há quase dez anos, mas ainda desconfortavelmente atuais — o que diz menos sobre sua idade e mais sobre a persistência dos temas abordados. Estão, sem exagero, entre as melhores dessa fase e não fazem feio quando colocadas ao lado de histórias clássicas da era Sclavi. O volume 2 está em seus momentos finais de pre venda no catarse, com lançamento para Abril e pode ser acessado nesse link.
QUANDO TODOS VOLTAM AO MESMO PERSONAGEM
Convém notar que essa Nova Série não marcou o primeiro retorno da Lorentz ao universo do personagem. Antes disso, no início de 2025, a editora já havia lançado Dylan Dog Gigante, volume que reúne três histórias — uma delas curta — publicadas originalmente no mesmo formato e na edição homônima italiana de 1992. Um retorno que carrega uma ironia difícil de ignorar: a Lorentz, que teve sua primeira passagem interrompida pela Mythos, agora reassume o personagem como se o mercado editorial jamais tivesse memória — o que, em geral, é verdade.
A Lorentz também publicou Dylan Dog Especial, volume que reúne as duas primeiras edições do Speciale italiano, lançadas originalmente em 1987 e 1988. Como já adiantado anteriormente nesta matéria, o Speciale segue em publicação na Itália até hoje, somando atualmente 38 edições — um caso raro de regularidade em um universo pouco afeito a finais definitivos. O numero 2 encontra-se em pre venda no catarse nos momentos finais, juntamente com a segunda edição da nova serie e pode ser acessado nesse link.
A editora tem apostado com consistência nas séries paralelas do personagem e, no final de 2025, lançou Almanaque do Medo, em edição de capa dura, reunindo os dois primeiros volumes do Dylan Dog Almanacco della Paura, publicados na Itália em 1991 e 1992. Com duas histórias longas e uma curta, o volume é complementado por uma série de textos sobre o universo do sobrenatural, incluindo um ensaio extenso dedicado a Lovecraft — uma presença que dispensa apresentações e que, neste contexto, parece mais convidado fixo do que participação especial.
Convém não confundir esse Almanaque do Medo com outra publicação de nome semelhante. Voltando alguns anos no tempo, em 2020 a Mythos havia lançado o Almanaque do Pesadelo, uma edição especial dedicada a Dylan Dog. O volume conta com 192 páginas, no formato Bonelli, capa brochura em cartão e histórias apresentadas em preto e branco. O material reúne oito histórias curtas, todas oriundas originalmente das edições italianas do Dylan Dog Gigante — mais especificamente dos números 16, 17, 18 e 19, publicados entre 2007 e 2010. A única ressalva fica por conta do formato adotado no Brasil: apesar da origem nas edições Gigante, o volume saiu por aqui fora desse padrão, numa decisão que não compromete o conteúdo, mas certamente chama a atenção de quem ainda associa o termo “gigante” a algo um pouco mais literal.PLANETA DOS MORTOS: O APOCALIPSE COMO CONTINUIDADE
A Panini vem publicando algumas edições especiais coloridas de personagens da Bonelli, e Dylan Dog está entre eles, agrupados sob o selo Biblioteca Dylan Dog, embora esse título não seja explicitado na capa. O primeiro desses volumes é Killex, que reúne as histórias “Killex” e “O Retorno de Killex”, publicadas originalmente nas edições 90 (1993) e 129 (1997) da série italiana.
Posteriormente, a Mythos viria a publicar “Killex” no Brasil, no número 38 de sua segunda série regular, desta vez em preto e branco, no formato original. Já “O Retorno de Killex” segue inédita nesse formato por aqui, o que faz do volume da Panini não apenas uma edição alternativa, mas a única forma de acesso completo ao arco no mercado brasileiro — ao menos por enquanto.
O segundo álbum da Biblioteca Dylan Dog é Johnny Freak, que apresenta a história consagrada em sua versão colorizada, acompanhada de sua continuação, “O Coração de Johnny”. A história original teve sua publicação em preto e branco no Brasil logo no primeiro número lançado pela Conrad, enquanto a continuação saiu posteriormente pela Mythos, no número 12 da segunda série.
Reunidas agora em um único volume, as duas histórias finalmente dialogam sem interrupções editoriais — uma raridade na trajetória brasileira do personagem. Ainda que a opção pela colorização de material originalmente concebido em preto e branco não seja, pessoalmente, a mais atraente, é justo reconhecer que o grande público da Panini tende a preferir o colorido, em consonância com o senso comum contemporâneo. Nesse contexto, a reunião de histórias ligadas por personagens e continuidade acaba compensando a escolha estética, oferecendo ao leitor um conjunto mais coeso do que o habitual — ainda que um pouco mais vibrante do que o estritamente necessário.
O terceiro número da Biblioteca Dylan Dog reúne a clássica “Zona do Crepúsculo” e suas duas continuações, “Retorno ao Crepúsculo” e “Herdeiros do Crepúsculo”, formando um arco finalmente apresentado de maneira contínua. A história original foi publicada no Brasil em sua versão em preto e branco pela Record, no número 7 de sua série — assim como na edição italiana — e mais recentemente voltou a circular pela Mythos, no segundo volume do Omnibus dedicado ao personagem.
“Retorno ao Crepúsculo”, por sua vez, saiu pela Lorentz em sua edição de estreia, enquanto “Herdeiros do Crepúsculo” permanece inédita no Brasil em sua versão original em preto e branco, mantendo viva a tradição de que toda trilogia de Dylan Dog precisa guardar ao menos uma de suas partes em estado de espera editorial.
O MUNDO ACABA, A BIBLIOTECA CONTINUA
O Quarto volume da Biblioteca Dylan Dog é praticamente uma serie dentro da Serie, Planeta dos Mortos, que dialoga diretamente com duas edições lançadas anteriormente pela Lorentz — Gigante e Especial. Trata-se de uma história distópica ambientada em um futuro possível do personagem e, como o título não faz questão alguma de disfarçar, em um mundo dominado por mortos-vivos, o que reduz consideravelmente a margem para interpretações otimistas.O primeiro volume publicado pela Panini saiu em julho de 2024 e reúne duas histórias: uma originalmente lançada na Itália em Dylan Dog Color Fest nº 10, de 2013, e outra publicada em Dylan Dog Gigante nº 22, de 2013, que retoma e amplia a narrativa iniciada anos antes. Darei mais detalhes a seguir.
Em 2008, Alessandro Bilotta escreveu uma historia curta desenhada por Carmine di Giandomenico que saiu no numero 2 de Dylan Dog Color Fest. A historia dos intitulada "O Planeta dos Mortos" (INEDITA AINDA AQUI NO BRASIL) e funcionava como um Epilogo da saga do nosso querido Old Man. A historia foi um sucesso e 5 anos depois foi publicada na Color Fest 2 uma especie de prequel desse Planeta dos Mortos chamado de "Adeus Grouxo", historia curta colorida que abre o encadernado da Panini.
Publicada em Dylan Dog Gigante 22 "O Planeta dos Mortos" revisita e alonga a historia publicada colorida em 2008. Desta vez em preto e branco e ainda escrita por Alessandro Bilotta mas agora com desenhos de Daniela Vetro.
Entusiasmados com o sucesso decidiram porem continuar a historia, o que nos leva ao Volume 2 da Panini que dá continuidade à série, que na Itália acabou migrando para o Speciale nº 29, de 2015 e a historia "A Casa das Memorias". Se as historias anteriores eram independentes e autocontidas agora pela primeira vez concebida de forma intencional que seria uma serie continua.
As demais historias foram publicadas sequencialmente nos anos posteriores no anual Speciale até o numero 35. Posteriormente na Italia foram compilados em 8 volumes com a saga Il planeta dei morti .
No Brasil, Planeta dos Mortos já conta com três edições publicadas, a terceira edição trazendo “O fim é o meu começo” (Speciale 30). Serão mais cinco volumes, o quarto publicando "Inimigo Publico n. 1" , o 5 "Em nome do Filho", o 6 "“Saudações de Undead”", o 7 "A grande consolação” e o derradeiro volume 8 trazendo a ultima historia "Uma Risada vai ressuscitar vocês" junto com a historia curta que deu origem a tudo no Color Fest 2 , e como ja dito antes inédita ate o momento aqui.
Mais do que uma saga distópica, a história dialoga de forma irônica com a própria estreia de Dylan Dog: se na primeira aventura o detetive investigava um mundo ainda ameaçado pelos mortos, aqui ele se move em um cenário onde essa ameaça venceu — como se o pesadelo inicial tivesse, enfim, cumprido sua promessa.
A FASE DE OURO, COM MENOS AMARELO
Voltando à Mythos, como já havia sido antecipado, o Omnibus do personagem vem republicando as histórias de Dylan Dogem ordem cronológica. Cada volume reúne seis histórias, e a coleção já conta com quatro edições publicadas. Trata-se, sem exagero, da melhor opção atualmente disponível para o leitor brasileiro, ao concentrar de forma organizada a chamada fase de ouro do personagem.
Mesmo para quem já possui as edições lançadas pela Record, o upgrade se justifica. As revistas originais, impressas em papel jornal, chegaram às bancas com uma qualidade gráfica apenas funcional e, com o passar do tempo, passaram a exibir aquele tom amarelado que não exatamente acrescenta atmosfera ao horror — apenas confirma a ação implacável do tempo, algo que Dylan Dog conhece bem demais.
A Mythos também publicou cinco volumes em formato de Graphic Novel dedicados ao personagem. A coleção em formato maior estreou com “Mater Dolorosa”, continuação direta de “Mater Morbi”, história lançada anteriormente pela Lorentz. No original italiano, “Mater Dolorosa” corresponde ao número 361 da série regular e já nasce como uma obra concebida em cores.O curioso é que, pouco depois dessa publicação em graphic novel, a Mythos lançou “Mater Dolorosa” novamente no Brasil em uma edição especial no formato italiano, mas fora da série principal — como se fosse um volume autônomo, sem grande explicação e sem ligação direta com a linha regular. Mesmo nesse formato mais compacto, a história foi mantida integralmente colorida, respeitando a concepção original da edição italiana. A decisão acaba reforçando o caráter singular da obra dentro do catálogo do personagem, ainda que sua posição editorial permaneça, no mínimo, pouco ortodoxa.
A segunda Graphic Novel, “Prelúdio para Morrer”, traz nada menos que Dario Argento como roteirista. O título brasileiro faz referência direta a um dos clássicos do diretor italiano, “Prelúdio para Matar”,estabelecendo um diálogo imediato entre o horror cinematográfico e o universo de Dylan Dog. Curiosamente, o título original — “Whipping Girl”(Garota Chicoteada) — aponta de forma muito mais explícita para o conteúdo da história, centrado em práticas sadomasoquistas. O uso do BDSM em Dylan Dog surge aqui quase como uma novidade temática e cumpre dupla função: delinear a personagem Lais e empurrar o protagonista até a beira do abismo, forçando-o a encarar algo radicalmente oposto à sua natureza — a violência direta contra uma mulher.
Com arte de Corrado Roi, a história constrói um espaço onde o sadomasoquismo se converte em estética, ritual e espetáculo, observado por um público que assiste à dor como performance, protegido por máscaras de animais. Não por acaso: os animais, enquanto símbolo e presença visual, são outra das obsessões recorrentes de Argento, aqui incorporadas de forma orgânica a um universo onde desejo, culpa e horror caminham lado a lado.
O terceiro volume da coleção apresenta a inédita “Nos Confins do Tempo”, publicada originalmente no número 50 da série italiana, em 1990. Embora essa edição tenha saído no original em preto e branco, a versão lançada pela Mythos neste graphic novel é colorizada. A versão original permanece inédita no Brasil — uma lacuna que deve ser preenchida em breve, quando a coleção de Omnibus alcançar esse ponto da cronologia.
O quarto volume traz a versão colorida de “Mater Morbi”, história publicada originalmente no número 280 da série regular italiana em 2009 e que, no Brasil, já havia saído pela Lorentz em seu terceiro número. Embora “Mater Morbi” cronologicamente anteceda “Mater Dolorosa” — que abriu a linha de Graphic Novels da Mythos — essa inversão não compromete a coleção, já que os volumes não são numerados e funcionam de forma independente
O quinto e último volume da linha de Graphic Novels trouxe “Lágrimas de Pedra”, publicada originalmente em cores no número 350 da série italiana, em 2015. A história faz parte da Nova Série, mas no Brasil acabou restrita a esse formato ampliado, sem publicação na coleção "Nova Serie" em formato italiano.
Tradicionalmente publicada em preto e branco, a série Dylan Dog teve a cor reservada, na Itália, a ocasiões específicas. Os chamados números redondos — 100, 200, 250, 300 e 350 — foram lançados originalmente em cores, marcando momentos simbólicos da trajetória editorial do personagem. Além deles, a Bonelli também recorreu à colorização em edições comemorativas de aniversário: os números 121 (10 anos), 241 e 242 (20 anos), bem como o 361 (Mater Morbi), publicado por ocasião dos 30 anos da série.
Mais recentemente, o número 375 também saiu originalmente colorido, celebrando o retorno de Tiziano Sclavi aos roteiros. Em todos esses casos, a cor aparece como exceção cuidadosamente planejada dentro de uma coleção que segue majoritariamente fiel ao preto e branco.
A Mythos também vem publicando alguns crossovers do personagem em edições especiais. O primeiro deles envolve Dampyr, outro personagem bonelliano ligado ao universo do sobrenatural, que já teve uma passagem relativamente breve pela própria Mythos e que hoje encontra abrigo editorial na Editora 85 — mais um exemplo da mobilidade característica desses personagens.O especial, lançado no início de 2024, reúne as duas partes do encontro: a primeira publicada originalmente em Dylan Dog nº 371, e a continuação em Dampyr nº 209, ambas lançadas na Itália em 2017. A edição funciona como registro completo do crossover, poupando o leitor brasileiro de acompanhar a história por diferentes títulos e editoras — uma comodidade que, neste caso específico, não chega a ser desprezível.
Depois disso, a Mythos publicou o terceiro crossover entre Dylan Dog e Martin Mystère. Como ja dito anteriormente o primeiro encontro havia sido lançado ainda no início da década de 1990 pela Record; o segundo saiu pela própria Mythos, na edição especial da série Tex e os Aventureiros.
Esse novo capítulo, publicado originalmente na Itália em 2018 e lançado no Brasil no final de 2024, recebeu o título “O Abismo do Mal”. Com isso, os dois personagens acumulam três encontros publicados no Brasil, o que faz surgir a necessidade de uma edição especial que reúna esse material de forma organizada. Essa demanda se torna particularmente clara no caso do segundo crossover, hoje praticamente perdido no meio de uma publicação pouco conhecida — daquelas que a maioria dos leitores dificilmente associa, à primeira vista, a Dylan Dog ou Martin Mystère.
Um pouco antes, a Mythos já havia publicado o encontro entre Dylan Dog e Morgan Lost, personagem que habita uma realidade alternativa e futurista da nossa. Criado por Claudio Chiaverotti, Morgan Lost é publicado no Brasil pela Editora 85 e já conta com oito edições, cada uma reunindo duas histórias. Na Itália, o crossover entre os dois personagens não surgiu de forma episódica, mas como uma minissérie própria, concebida pelo próprio Chiaverotti e publicada entre 2018 e 2020, com começo, meio e fim bem definidos.No Brasil, esse material chegou de forma gradual. O primeiro volume, “Pesadelos & Assassinos Seriais”, foi lançado em setembro de 2024. Em agosto de 2025, a Mythos deu continuidade à publicação com uma segunda edição, reunindo “O Ceifador” e “Retorno à Escuridão”. Pouco depois, em outubro do mesmo ano, saiu o terceiro encontro, “Mister Fear & A Culpa é do Medo”, completando a adaptação brasileira de uma minissérie que, na origem, sempre foi pensada como tal — ainda que por aqui tenha se revelado aos poucos, quase como quem não faz questão de chamar muita atenção para si.
Ao longo de quase quatro décadas, Dylan Dog sempre retornou ao mesmo ponto de partida: o pesadelo. No primeiro número, eram os mortos-vivos; anos depois, o futuro possível de Planeta dos Mortos apenas confirmou que aquele aviso inicial não havia sido exagerado. No Brasil, a trajetória do personagem acabou espelhando esse movimento. A cada longo período de ausência, Dylan Dog parecia definitivamente enterrado nas bancas — apenas para ressurgir, como convém, em outro formato, por outra editora, com o mesmo ar melancólico de quem nunca esteve realmente em repouso.
Nesse vai-e-volta editorial, o personagem atravessou séries regulares, especiais, omnibuses, graphic novels de luxo, crossovers e até o território da paródia. Como curiosidade final, a Editora Abril chegou a publicar a sátira “Dylan Mouse” em revistas da linha Mickey — e, posteriormente, reuniu essa e outras duas paródias de personagens da Bonelli em um encadernado de luxo em capa dura, encerrando a trajetória brasileira do Investigador do Pesadelo com uma piscadela inesperada.Talvez seja esse o destino natural de Dylan Dog: morrer e voltar quantas vezes forem necessárias. Afinal, no seu universo — e curiosamente também no nosso mercado editorial — nada permanece enterrado por muito tempo.
DYLAN DOG NOS CINEMAS
Dylan Dog ganhou uma adaptação cinematográfica em 2010, dirigida pelo inexpressivo Kevin Munroe e “estrelada” pelo ainda mais inexpressivo Brandon Routh — curiosamente um ator que já havia encarnado um dos super-heróis mais conhecidos dos quadrinhos e que aqui parece cumprir a ingrata missão de provar que nem todo personagem sobrevive à travessia para o cinema. Não chega exatamente a “afundar” o personagem, mas tampouco o ajuda a boiar: o filme simplesmente passa, sem impacto, sem identidade e sem deixar rastros.
A produção é norte-americana e teve pouca repercussão, servindo basicamente como ponto de discórdia entre fãs, divididos entre odiar o resultado ou preferir ignorá-lo por completo. Eu pertenço ao segundo grupo. Nunca assisti, apesar de manter o Blu-ray na estante — coisa típica de colecionador que já desistiu de justificar seus próprios critérios.
Uma rápida olhada no IMDb não ajuda a melhorar o cenário: não há menção a personagens fundamentais como Groucho ou o inspetor Bloch, o que costuma ser um sinal preocupante — ou, no mínimo, um indício de que alguém achou que “simplificar” era uma boa ideia. Raramente é.
Na verdade, eu nem pretendia falar desse filme. Ele só entra aqui por contraste, porque existe “Pelo Amor e pela Morte” (Dellamorte Dellamore, 1994) — e este, sim, é considerado por muitos o verdadeiro filme de Dylan Dog, mesmo sem se chamar Dylan Dog.Baseado em um romance de Tiziano Sclavi publicado em 1991 e inédito no Brasil (alô Editoras !) , o filme reflete com precisão a chamada “filosofia sclaviana”, tão presente nos quadrinhos. Está ali a dualidade entre amor e morte — dell’amore e della morte, um jogo de palavras que Sclavi jamais resistiria a explorar — vivida por Francesco Dellamorte de forma intensa, obsessiva e pouco prática, como convém.
Auxiliado pelo abobalhado Gnagi, que não tem absolutamente nada de Groucho (nem física, nem espiritualmente), Dellamorte é o guardião do cemitério de Buffalora, uma pequena cidade do norte da Itália onde, por razões nunca explicadas — e nem questionadas —, os mortos se levantam de suas sepulturas. Cabe a ele destruí-los. Curiosamente, Dellamorte não parece interessado em entender o fenômeno: ele simplesmente atira e ama. Nessa ordem variável, mas com igual dedicação.
A bela (e dizendo bela estou sendo muito modesto e recatado) Anna Falchi interpreta a personagem feminina sem nome cuja função principal é complicar ainda mais a vida de Dellamorte, algo que ela faz com eficiência admirável. Bela demais para ser apenas “bela”, ela funciona como encarnação do desejo, da perda e da repetição — conceitos que o filme trata com uma seriedade quase absurda, o que só torna tudo mais eficaz.
E então há Rupert Everett. É ele quem interpreta Francesco Dellamorte, em uma escolha que não poderia ser mais acertada. Everett foi, durante anos, o modelo visual assumido para o personagem nos quadrinhos, e aqui empresta ao papel exatamente o que Dylan Dog sempre exigiu: elegância cansada, ironia contida e a sensação permanente de alguém que já entendeu o mundo — e não gostou muito do que viu.
Sem falar no Fusca do personagem que só faltou a placa DY 666. Por isso, Dellamorte Dellamore carrega, para muitos leitores e espectadores, um selo tácito de legitimidade: não é oficialmente Dylan Dog, mas é tudo o que o filme de 2010 não conseguiu ser. Um pesadelo romântico, melancólico e absurdamente coerente em sua própria lógica. Como o próprio personagem.
Talvez o cinema seja, no fim das contas, apenas mais um dos lugares onde Dylan Dog pode — ou não — existir. Quando funciona, como em Dellamorte Dellamore, não é porque respeita regras de adaptação, fidelidade ou cânone, mas porque compreende o essencial: o horror como estado de espírito, o amor como armadilha recorrente e a morte como presença cotidiana, quase burocrática. Quando falha, falha justamente por tentar explicar demais, iluminar demais, tornar “funcional” algo que sempre viveu melhor nas sombras.
Nos quadrinhos, Dylan Dog jamais precisou de coerência absoluta, continuidade rígida ou finais definitivos. Morreu, enlouqueceu, envelheceu, foi esquecido, reformulado, relançado, interrompido e retomado inúmeras vezes — na ficção e fora dela. No Brasil, sua trajetória editorial reflete essa lógica com precisão involuntária: longos silêncios, retornos inesperados, formatos distintos, promessas de estabilidade que nunca duram muito. Como o próprio personagem, Dylan Dog parece sempre à beira do desaparecimento, apenas para reaparecer em seguida, intacto em sua melancolia.
Talvez seja por isso que ele continue funcionando. Porque Dylan Dog não oferece conforto, não promete ordem e nunca sugere que os pesadelos possam ser resolvidos de forma definitiva. No máximo, investigados. Às vezes compreendidos. Raramente vencidos. E, quando tudo parece terminar — seja no cinema, nos quadrinhos ou nas bancas brasileiras — sempre resta a sensação de que aquilo não era exatamente um fim, apenas mais uma pausa incômoda entre um pesadelo e o próximo.
Afinal, no universo de Dylan Dog, nada permanece enterrado por muito tempo. Nem os mortos. Nem as histórias. Nem o próprio personagem.






























